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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Algumas palavras, alguns livros, 22

Algumas palavras, alguns livros, 22

O casaco de Marx – roupas, memória, dor
de Peter Stallybrass, organização e tradução Tomaz Tadeu.
Belo Horizonte: Autêntica, 3 ed., 2008.
As coisas que usamos
Resenha da obra de ensaios do inglês Peter Stallybrass, que traz três artigos: “A vida social das coisas: roupas, memória, dor”; “O casaco de Marx” e “O mistério do caminhar”. O autor nos leva a passear pela relação entre as pessoas e as roupas. E entre o caminhar e as pessoas. Por um lado, a memória que as roupas carregam e, por outro lado, a transformação das roupas em mercadoria do mundo capitalista, a exemplo do que aconteceu com Karl Heinrich Marx.
Palavras chave: ensaio, sociologia, afetos, subjetividade, memória

Abstract:
The coat we use
Review of the book of the English Peter Stallybrass, which brings three articles: "The social life of things: clothes, memory, pain"; "Marx's coat" and "The mystery of walking." The author takes us walking the relationship between people and the clothes. And walking and people. On the one hand, the memory that carry the clothes and on the other hand, the transformation of clothing merchandise in the capitalist world, an example of what happened to Karl Heinrich Marx (1818 - 1883), German intellectual and revolutionary, founder of Communist doctrine.
Keywords: essay, sociology, affections, subjectivity, memory

As coisas que usamos
                            Ninfa Parreiras
O que representam as coisas que usamos? E as que herdamos para nosso uso? As roupas e os objetos de uma pessoa podem ser como a colcha de retalhos da sua vida. Moldam memórias, trazem paixões, hábitos, dores, cheiros, gostos, toques, sons... Pedaços de experiências que se foram, fragmentos de encontros e desencontros.
Ao usar um casaco que foi de uma pessoa, ali está outro corpo e um odor que não são nossos. A roupa tem o jeito e a forma do corpo de outrem. Ela tem as memórias de uma vida: o caminhar, pequenos objetos guardados nos bolsos, a estética de quem a usou. Com o passar do tempo, o corpo que usa a roupa a molda com uma bagagem afetiva própria, feita de silêncios. Com sons, formas, cheiros, texturas...
Uma roupa usada traz uma linguagem não verbal de sentimentos, de experiências. Ela é um depositário da alma da memória de quem a usa. A roupa usada é um patrimônio da subjetividade.
Dividida em três breves e intensos ensaios, a obra do estudioso inglês Peter Stallybrass leva o leitor a caminhar por roupas, objetos e memórias. No primeiro ensaio, nos deparamos com as roupas daqueles que partiram. Como a família lida com as roupas que ficaram? Alguns se desfazem imediatamente dos objetos do falecido, outros guardam por incontáveis anos. O autor afirma, por experiência própria, que quando se veste a roupa que antes era de outro você leva junto a memória daquela pessoa. Você veste a bagagem afetiva do outro.
Já o segundo ensaio, que dá nome ao livro, é um pensar sobre a transformação das roupas em mercadoria. Acompanhamos a história das roupas no século XIX, principalmente o casaco de Karl Heinrich Marx (1818 - 1883), intelectual e revolucionário alemão, fundador da doutrina comunista; suas idas e vindas à loja de penhores. A luta para se resgatar o que ficou. A necessidade do dinheiro e o valor da roupa. Marx e sua família sofriam, na Inglaterra, quando ele escrevia O capital e não contavam com sustento suficiente. Penhorava vez ou outra o casaco que o protegia do frio e que o permitia entrar no Museu Britânico para as suas pesquisas. Vivia um conflito e uma perda a cada ida à loja de penhores: pelo frio que passaria e pela perda simbólica do casaco que o permitia realizar os estudos.
Importante ver como a roupa era uma marca de distinção, já que Marx somente poderia ir ao Museu Britânico para trabalhar se o seu casaco não estivesse penhorado. Stallybrass apresenta, como aspectos diferentes de hoje, as cores e certos tecidos que distinguiam as classes sociais. Questiona o caso dos prisioneiros que são despojados de sua roupa como forma de despojar do que são. Curioso ver como ele associa estudos acadêmicos com a vida daqueles que os escrevem, como também de uma forma mais direta com a sociedade que vivem. Podemos pensar também nos uniformes neutros e impessoais usados por determinados profissionais. O neutro parece impessoalizar, tira a identidade e as peculiaridades de quem o vestem.
O último ensaio versa sobre a noção de caminhar em diferentes peças clássicas da literatura universal. Stallybrass discute a dramaturgia de diferentes séculos, como Édipo Rei, Édipo em Colono e Rei Lear. Édipo não pode caminhar com segurança pela mutilação que sofreu nos pés, enquanto Lear não precisa andar pelo poder que tem. Stallybrass levanta um importante ponto sobre a dificuldade de se caminhar e como desvalorizamos esse ato quando conseguimos o realizar naturalmente depois de aprendido. Isso não vale somente para o andar, muitas atitudes que tomamos são tão naturais em nossas vidas que não percebemos mais como devemos valorizá-las. Um dos aspectos centrais do ser humano é o caminhar. A Esfinge nos possibilita ver a singularidade do caminhar.
Mais adiante, Stallybrass lembra dos livros É isto é um homem? e A trégua, ambos do prisioneiro e sobrevivente de Auschwitz-Birkenau, Primo Levi (1919-1987), como reflexões sobre as pré-condições do caminhar do homem. Nos campos de concentração, os prisioneiros que conseguiam sapatos que não entravam bem em seus pés, percebiam que não conseguiriam caminhar com eles. E se não podiam andar, não davam conta de trabalhar. E a morte começava pelos sapatos (a falta deles ou a incompatibilidade dos pés com o calçado).
Em A trégua, Levi, de volta para casa, descobre que os sapatos são fundamentais para a sobrevivência humana. Numa guerra, quem tem sapatos, pode fugir em busca de comida. O caminhar inaugura a possibilidade do ficar de pé, do equilíbrio, do ser homem (animal que anda sobre duas patas). Notável esse ensaio que nos coloca diante de algo tão natural, o caminhar, e, ao mesmo tempo, tão complexo! Um paciente, quando anda sozinho por sua própria conta, deixa a análise.
As roupas e os adereços são meros objetos de uso? Ou nos servem de proteção e de ninho para nossas memórias e sentimentos? A obra de Stallybrass nos traz essas questões, como enigmas da nossa existência.
Lembro-me de um analisando que costumava usar um mesmo casaco nos quatro anos que esteve em análise. Saía do escritório de advocacia onde estava empregado no centro da cidade e trajava o casaco que fora do pai, um senhor alcoólatra, falecido há uma década em terras frias. Meu analisando lutava naquele momento contra a tentação da bebida e o gosto da solidão em sua vida: separado, morava com as filhas moças, não possuía casa própria e se sentia cada vez mais humilhado pelo vício da bebida.
Após um trabalho de transferência com a elaboração da representação da figura do pai alcoólatra, ele tirou o casaco. A vestimenta o envolvia de representações negativas e ameaçadoras. Trocou-a por um blazer mais leve, ao gosto do clima temperado da cidade do Rio de Janeiro. Deixar o casaco do pai, que representava a ruína de ambos, inaugurou um momento diferente, em que ele também deixava a bebida destilada que costuma ter como companhia diariamente. Durante os últimos meses da sua análise, ele pode ir ao trabalho e à análise com seu blazer de linho, leve, sem a memória ferida do alcoolismo. Ele trazia uma memória que começava a somar experiências novas, de um homem decidido a refazer a vida, com feições de sua própria identidade, não mais a identidade do pai, colada simbolicamente naquele casaco.
No estúdio do artista Paul Cézanne (1839-1906), em Aix-en-Provence, no sul da França, além de objetos que ele pintava, como frutas, garrafas, há o seu chapéu dependurado, seus casacos, seu guarda-chuva, sua bolsa de couro. Parece que Cézanne foi dar uma volta ali e já retornará. Cada um de nós que tocamos os olhos naqueles objetos de uso pessoal e em sua arte compartilhamos de suas dores, sonhos, sensações. Seu estúdio não é um mero museu depositário de objetos e pinturas. É mais do que isso!
Criamos, com Cézanne, ao apreciar aquelas coisas cheias de existência. Sentimos cheiros, sons, uma vida que não foi apagada, não somente pela universalidade e atemporalidade de suas pinturas, como também pelo frescor do seu estúdio, com móveis, potes, imagens, panos decorativos e seu jeito singular de lidar com a arte. Seus objetos pessoais imprimem uma singularidade e imortalizam Cézanne.
Em uma matéria do jornal britânico The Guardian, http://www.guardian.co.uk/travel/interactive/2013/may/17/paul-cezanne-studio-aix-en-provence-france-audio-slideshow (acesso em 23/05/2013, 22h25), podemos apreciar a vida em cada objeto usado. Como eles guardam as feições do grande pintor francês!
Aprendemos com Donald Winnicott (1896-1971) que o objeto transicional pode ser representado por um cobertorzinho, a manga de um casaquinho do bebê ou até mesmo aquele pano (mulambinho) que ganha cheiro forte, impregnado de suor, lágrimas, leite, a que muitos pequenos se agarram numa determinada fase. Esse objeto é, ao mesmo tempo, uma coisa objetiva, que existe num mundo compartilhado; e subjetiva, para o seu dono. Ele faz parte de uma fantasia, possui vida própria. Seria como um casaco herdado? Um casaco que tem cheiro, forma e lembranças de outro?
Se, por sua vez, o objeto transicional prolonga o período em que o bebê se acredita onipotente, enquanto ele substitui essa crença com a aceitação de uma realidade sobre a qual não tem controle nem pode modificar por meio da imaginação, o casaco reedita reminiscências de alguém que se foi, mas permanece ali em memórias sensoriais. O bebê se vê com poderes mágicos e, com o tempo, percebe a ilusão. Com as brincadeiras e o aprendizado do mundo, a criança, o adolescente e o adulto retêm o poder de criar e adaptam-se às possibilidades reais. A fantasia é de fato a marca do humano: ela pode vir em casacos, mulambinhos, em sapatos, em criações que fazemos das coisas que usamos.
E para viver e caminhar, que venham os sapatos, confortáveis! Aprendemos com a leitura dos ensaios de Stallybrass, que nossas roupas e adereços não são apenas objetos de uso descartável e utilitário. São mais do que isso, vão além das necessidades sociais e corporais de usá-los. São extensões do nosso corpo e possibilidades de reedições de nossos sonhos. 

Resenha para a Revista da Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro - SPCRJ, Cadernos de Psicanálise – SPCRJ, A Perversão Normatizada e o Lugar do Analista, vol. 29, n. 32, 2013
Indicação da leitura da obra: Bruna Foureaux Parreiras

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Algumas palavras, alguns livros 21

Flores raras e banalíssimas
A história de Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop
Carmen R. Oliveira
Rio de Janeiro: Rocco, 1995
            Conhecer um relacionamento amoroso entre duas mulheres, talentosas e sensíveis, nos faz pensar sobre a criação amorosa e o trabalho. Chegam ainda dores e perdas. As relações são feitas de tudo isso. De novembro de 1951 a setembro de 1967, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares (1910-1967), brasileira, nascida em Paris, e a norte-americana Elizabeth Bishop (1911–1979) viveram uma relação intensa, marcada por descobertas e viagens. Entre Lota e Bishop, havia ora um compasso, ora um descompasso de trocas e paixões. Realizaram uma vida amorosa, rodeadas de amigos, de um ambiente natural da serra fluminense. E também de tensões e incompatibilidades.
Por um lado, da parte de Lota, a construção de uma casa e jardins em Samambaia, Petrópolis, RJ, a idealização do Parque do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, a convivência com artistas, escritores e arquitetos consagrados da época, o gosto apurado, a preocupação com o viver bem. Por outro lado, da parte de Bishop, a sensibilidade para fazer poemas, o olhar que descortina o Brasil, a busca de um recanto acolhedor, a convivência com amigos de outros continentes, que vieram visitá-la: Aldous Huxley, Raymond Aron, Nicolas Nabokov, John dos Passos... Uma parceria amorosa, regada por arte, literatura e natureza.
Se uma era muito segura e empreendedora, a outra frágil e dependente. Ao conhecermos a história das duas, percebemos o quanto o desamparo as acompanhava. Lota parecia uma mulher segura e valente, mas não suportou a ideia de perder a companheira que volta para Nova York. Bishop não conseguia produzir no contexto que marcou o tempo de trabalho de Lota no projeto do Parque do Aterro do Flamengo. Uma sentia a falta da outra.
A generosidade delas, em compartilhar suas criações, os jardins da casa serrana, o Parque do Flamengo, os poemas, as traduções, nos mostra a parceria e a relação que se desenvolveu. Uma gostava de ler para a outra. Juntas, construíram uma família. Parece que o afastamento delas não foi favorável para nenhuma delas. O Brasil, inicialmente estranho para Bishop, era o lugar onde ela teve uma casa, que enriqueceu sua vida. Fez inúmeras viagens pelo país, com destaque para Ouro Preto, onde também residiu parte da sua vida e para a Amazônia, onde esteve mais de uma vez atraída pela excentricidade das pessoas, das matas e comidas.
Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Clarice Lispector foram alguns dos escritores das leituras de cabeceira de Bishop. Encantada pela informalidade e identidade desses artistas, ela traduziu alguns dos seus textos.
O que há de melhor na obra de Carmen R. Oliveira, adaptada recentemente para o cinema, pelo diretor Bruno Barreto, é o contato com a história das duas amantes. Outras obras retratam o universo de Bishop, com passagens discretas pela sua experiência brasileira. Em Flores raras e banalíssimas, temos a intensidade de afetos das duas e das pessoas e acontecimentos que as cercaram: parte importante da história do Rio de Janeiro e do Brasil protagonizada por Lota e a revelação da poesia de Bishop, considerada uma das mais importantes poetas de língua inglesa. 
                                                              Ninfa Parreiras

Antologia ilustrada da poesia brasileira, para crianças de qualquer idade
Organização e ilustrações Adriana Calcanhotto
Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013
            Ler poemas para crianças de qualquer idade inclui no público as crianças, os jovens e os adultos: toda a família! Isso realiza uma das características da literatura: a de ser universal e atemporal. A poesia não pode mesmo ser endereçada a um único público.
Ao folhear esta delicada obra organizada por Adriana Calcanhotto, passeamos por diferentes épocas, estilos e poetas brasileiros. Ela reuniu de Afrânio Peixoto, poeta baiano, a Arnaldo Antunes, poeta paulistano. Do carioca Vinicius de Moraes ao mineiro Carlos Drummond de Andrade. São dezenas de poemas que nos presenteiam com brincadeiras, dúvidas, non sense, ironia, descobertas, estações, animais. Coisas para cada leitor descobrir!
Na poesia, encontramos elementos tão necessários a nossa vida: a musicalidade, os ritmos, os movimentos e a brincadeira de palavras. E ainda o não entender o que se lê. Como na vida, não entendemos tudo o que vivemos. A poesia não é para ser entendida e interpretada, mas para ser sentida e vivida, com todas as lacunas que traz.
Uma apresentação, um sumário, a biografia dos poetas e a bibliografia enriquecem a obra editada pela Casa da Palavra, que valoriza a produção poética de tantos escritores. Nada como ler o poema e conhecer o autor! Sobre fundo claro, foi feita a impressão dos versos. Ilustrações de Calcanhotto retratam imagens associadas aos versos e nos convidam a virar a página e a ler mais um poema.
                                                                     Ninfa Parreiras 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Modos de ser 1

Modos de ser: 
Golpistas da internet, scammers nigerianos
Ninfa Parreiras
        A internet tem facilitado nossa vida social e afetiva. Muitos serviços você faz de casa: compras, movimentação bancária. Eliminamos o uso do fax, a ida ao correio para passar um telegrama: você pode fazer isso pela internet. Escreve ou conversa com amigos e familiares. São fácil e economicamente contatados por emails, facebook, bate papo on line, skype.
            Por sua vez, a internet gerou suas formas de perversão, os profissionais golpistas das diversas áreas possíveis aproveitam! E outros que usam a facilidade desse meio de comunicação para atuar de uma forma maldosa e corrupta.
       A cultura digital nos trouxe a velocidade do contato: você adiciona o conhecido ou desconhecido com a mesma facilidade que o deleta da sua conta de email e facebook. O que isso representa no campo dos afetos? Ao descartar uma pessoa dos seus contatos, você a tira com a mesma facilidade que a integrou. Não houve um vínculo afetivo que sustentasse a relação, que trouxesse mágoa, paixão, ciúme. Teria desaparecido a intensidade afetiva das paixões? Não fazemos laços nem amizades duradouras com tantos conhecidos adicionados, como os mais de mil contatos. Temos relacionamentos instantâneos que duram quanto tempo dura o interesse de troca. É o mundo do mercado e do consumo que impera sobre todas as coisas e sentimentos!
            Há quadrilhas organizadas que atuam via emails e facebook, desde 2009, conhecidas como scammers nigerianos que residem em diversos países. Dirigem-se a homens e mulheres, adultos de todas as idades do mundo todo. Já atuaram em golpes a empresários. Agora, tem sido corrente o golpe amoroso, amistoso.
Os brasileiros são alvo certo, gostam de uma conversa, são receptivos ao estrangeiro. Há solteiros, viúvos e separados que procuram seus pares: homens ou mulheres. E há as solteiras, viúvas e separadas que buscam seus pares: homens ou mulheres. Do lado de lá, há senhoras e senhores de idade que possuem um patrimônio significativo e estabelecem amizades com pessoas de cá. Há pessoas interessadas em uma amizade brasileira. Uma grande ficção!
            Aliás, a nossa vida é feita de ficções, de coisas que criamos para sobreviver e suportar aquilo que não tem volta: a nossa mortalidade. Alimentamos nossas paixões, precisamos estar acompanhados, sentimos falta do outro. Acreditamos nas narrativas pessoais e sociais, sem falar nas literárias. E a palavra nos seduz, nos deixa levar por enganosos contatos. Isso acontece com relacionamentos pessoais e virtuais.
            As conversas com os golpistas são estabelecidas na nossa língua, traduzidas pelo Google tradutor ou outro programa de tradução. Os depoimentos são superficiais, consumistas, imediatistas, cheios de lugar comum. A pessoa que está do lado de lá quer estabelecer logo um relacionamento com a vítima daqui: ter intimidade e confiança que você custa tempo e quilômetros caminhados para estabelecer. Podem até enviar flores, presentes, cartões, fotos de família, declarações de amor e de amizade... Quando percebem que a pessoa daqui está inteiramente cevada, como um animal, preparam-se para dar o bote. Geralmente acontece quando o golpista está a trabalho fora do seu país, ou a caminho do Brasil. Pode ser o pedido de um empréstimo para uma cirurgia fora ou um depósito para efetuar a compra de um produto onde a pessoa está. Ou um valor porque o golpista foi roubado. Logo, surge a solicitação de um depósito em uma conta estrangeira. E você ainda não sabe que sua paixão do lado de lá é um golpista.
           A construção narrativa das mensagens não costuma apresentar coerência nem elementos de verossimilhança. Ou seja, um texto que não serviria para uma boa novela. Repete outros tantos que foram enviados a pessoas de diferentes partes do mundo. Por sua vez, os elementos perversos se derramam pela conquista virtual que pode contar também com telefonemas e conversas via skype, geralmente em inglês mal falado. Ou seja, pegam pessoas que se entregam com facilidade a relacionamentos virtuais e que são confiáveis. Agem na falta de. Falta de companhia, de um amigo/uma amiga, de uma pessoa da família. Preenchem um espaço vazio que existe na sua vida. O risco são os prejuízos emocionais e financeiros. São modos de ser da nossa contemporaneidade: tanto a entrega apaixonada a contatos instantâneos, quanto as ações perversas dos golpistas, também instantâneas.  
            Para saber mais sobre os scammers nigerianos, consulte e leia depoimentos de pessoas que foram enganadas:
Divulgue!

foto: arquivo pessoal, Tiradentes, verão 2011