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domingo, 28 de novembro de 2010

Ver o Rio


Grades do Rio


                                                           Ninfa Parreiras

Foram telefonemas. Mensagens de emails. Recados. Como está o Rio? Tome cuidado! Interrompa seus trabalhos e viaje! Suma daí! As notícias: são as piores. Tanques do exército, helicópteros, armas de guerra, poeira e uma batalha sem data pra acabar.
Venha pra cá, largue tudo, mude-se pro Algarve, pra Bavária, pra Amazônia, pra Porto Alegre, pros confins das Gerais... Foram muitos os amigos, as vozes de alento. Quem está longe vê o caos ainda mais caótico. Tudo no Rio é exagerado: a beleza, a tristeza, a guerra.
O Rio de Janeiro continua lindo, entre grades, paredes e coletes a prova de balas. Caminho pela orla diariamente, a admirar o mar, as aves, as ondas que brincam de pega-pega pra ver qual chega primeiro. Um dia, alcanço o infinito do oceano.
Dia destes, me chamou a atenção o colete a prova de balas que usavam os seguranças de alguns edifícios no Leblon. O que era aquilo? Por que usar tal colete à beira mar? Era a guerra. Declarada. Bem perto de nós. Em cada esquina, quilos de munição, policiais armados. Um desconforto pra todos.
         Há poucos quilômetros dali, na área da Penha, um confronto de forças. Uma luta social. Milhares de famílias expostas, sacrificadas, velhos, adultos e crianças sem saber pra onde ir. À praia? Haveria mar pra todos? Na areia caberiam todos os sonhos? Como fugir? Nossa Senhora da Penha daria conta de atender a tantos pedidos? Bandidos!


       Entre grades, o Rio abre a beleza, desdobra suas curvas, seduz... Uma floresta que abraça uma cidade inteira, um mar que banha cada parte oceânica. Casas antigas, sobrados, linha do trem... História, cultura, natureza: reunidos num só lugar. Colinas que abrem a cidade aos oito cantos. Cantos? Conta mais da cidade! As pessoas que aqui vivem falam da cidade com boca cheia de orgulho e gosto pela indiscutível beleza. Ou falam com desgosto e preocupação.
       Mais que a arquitetura, a plástica, a urbanização, a natureza, faltaria algo. Um cuidado com as pessoas, com os cariocas, com os trabalhadores, com as famílias, com os indigentes, com os estudantes, com os migrantes, com os imigrantes, com os turistas, com todos que vivemos na Cidade Maravilhosa. Com os estrangeiros todos que aqui chegamos e com os que admiram o Rio de longe. Cuida de nós! É a voz que conclama o mundo a favor do Rio neste inesquecível novembro de 2010.


foto: arquivo do Rio, Lagoa Rodrigo de Freitas, primavera, 2008

sábado, 4 de outubro de 2008

Linguagens cortadas


Linguagens cortadas


Era uma tarde de sexta-feira, de euforias e de alegrias. De recolhimentos. De pessoas que circulavam a pé, de bicicleta, de carro, de ônibus, de van... Vão embora que o sol arde! A última hora trabalhada. A última compra da semana. A última de tudo: da fila, do supermercado, da Praça Nossa Senhora da Paz de Ipanema... O último paciente, a última escuta. Último corte. Um recorte do cotidiano na praça.

Vi e ouvi uma mãe que surrava um filho pequeno de uns cinco anos. E o filho surrava a mãe. E a mãe era também pequena, não tinha mais que vinte anos. Mais que um metro e meio. Uma surra de amarguras, de perdas, de cortes. Surra. Cada qual com um pé de chinelo na mão, que se engrandecia como uma prancha de borracha. Chlap! Seu vagabundo! Chlap! Sua puta! Seu bando de merda, tu não vale nada! Chlap!

Parei, estarrecida, imóvel, diante da falta de palavras e do excesso de tapas e berros. E urros e dores. Não grita no meu ouvido! Meu ouvido não é penico, oh! Mas havia pessoas que emudeceram junto comigo. Os olhos pularam assustados em cima de tamanha crueldade.

E as mãos? E as palavras? Minhas e dos outros? Onde foram parar? Onde foram falar? Chlap! Chlap! Seu! Sua! Seus transeuntes que passam! Que cena é esta? Que praça é esta?

A linguagem cortada, serrada ao meio, aos trancos e aos ventos. Meus ouvidos seguiram os dois. E a brutalidade se perdia ao longo das esquinas. Estaria escondida? Era uma fugitiva?


Ninfa Parreiras
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(foto: arquivo pessoal, Rio de Janeiro, inverno, 2007)

domingo, 15 de junho de 2008

UM HOMEM AO TEMPO




Um homem ao tempo

Ontem, dei voltas pelo bairro e vi em todas as voltas o mesmo homem. O mesmo cheiro de falta. De banho. De cuidado. O mesmo cobertor furado e rasgado. Rasgado pelo tempo que dá voltas na gente. Furado por balas de tiroteio? Tiroteios ao peito, batidas fortes de quem acorda com a sirene do corpo de bombeiros e dorme com as cantadas de pneus no asfalto. Ou de quem acorda com a obra do metrô da Praça General Osório e dorme com o baile funk do Pavãozinho.


Volta e meia lembro-me daquele homem e dos seus traços de meia idade pelas ruas do bairro. Suas linhas de velhice que bate à porta do tempo. Mora só, na rua. Mas vive rodeado por gentes, camelôs, carros, ônibus, tratores... Vive rodeado da solidão urbana que nos persegue.


- Paga um café, pra mim, madami?


O que pede aquela assombração humana, coberta de cobertores rasgados e furados, de pele drapeada ao vento? Que café deseja beber? Um gole de vida dormida? Café ralo, coado sobre os jornais de ontem? Um gole amargo, com gosto de bebida passada?


O que se passou ontem com o homem que dá voltas pelo bairro? Uma melancolia profunda? A solidão de todos os dias? Homem do nosso tempo. Flutua sobre os restos de todos. Sobrevive do que sobrou da sua, da minha casa. Restos de gente. Torresmo, há? Há restos. Ele é um resto de gente que o tempo arrasta com o cobertor pela voltas do bairro.




Ninfa Parreiras
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(foto: arquivo pessoal, Lapa, Rio de Janeiro, verão, 2008)