Linguagens cortadas
Era uma tarde de sexta-feira, de euforias e de alegrias. De recolhimentos. De pessoas que circulavam a pé, de bicicleta, de carro, de ônibus, de van... Vão embora que o sol arde! A última hora trabalhada. A última compra da semana. A última de tudo: da fila, do supermercado, da Praça Nossa Senhora da Paz de Ipanema... O último paciente, a última escuta. Último corte. Um recorte do cotidiano na praça.
Vi e ouvi uma mãe que surrava um filho pequeno de uns cinco anos. E o filho surrava a mãe. E a mãe era também pequena, não tinha mais que vinte anos. Mais que um metro e meio. Uma surra de amarguras, de perdas, de cortes. Surra. Cada qual com um pé de chinelo na mão, que se engrandecia como uma prancha de borracha. Chlap! Seu vagabundo! Chlap! Sua puta! Seu bando de merda, tu não vale nada! Chlap!
Parei, estarrecida, imóvel, diante da falta de palavras e do excesso de tapas e berros. E urros e dores. Não grita no meu ouvido! Meu ouvido não é penico, oh! Mas havia pessoas que emudeceram junto comigo. Os olhos pularam assustados em cima de tamanha crueldade.
E as mãos? E as palavras? Minhas e dos outros? Onde foram parar? Onde foram falar? Chlap! Chlap! Seu! Sua! Seus transeuntes que passam! Que cena é esta? Que praça é esta?
A linguagem cortada, serrada ao meio, aos trancos e aos ventos. Meus ouvidos seguiram os dois. E a brutalidade se perdia ao longo das esquinas. Estaria escondida? Era uma fugitiva?
Ninfa Parreiras
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Era uma tarde de sexta-feira, de euforias e de alegrias. De recolhimentos. De pessoas que circulavam a pé, de bicicleta, de carro, de ônibus, de van... Vão embora que o sol arde! A última hora trabalhada. A última compra da semana. A última de tudo: da fila, do supermercado, da Praça Nossa Senhora da Paz de Ipanema... O último paciente, a última escuta. Último corte. Um recorte do cotidiano na praça.
Vi e ouvi uma mãe que surrava um filho pequeno de uns cinco anos. E o filho surrava a mãe. E a mãe era também pequena, não tinha mais que vinte anos. Mais que um metro e meio. Uma surra de amarguras, de perdas, de cortes. Surra. Cada qual com um pé de chinelo na mão, que se engrandecia como uma prancha de borracha. Chlap! Seu vagabundo! Chlap! Sua puta! Seu bando de merda, tu não vale nada! Chlap!
Parei, estarrecida, imóvel, diante da falta de palavras e do excesso de tapas e berros. E urros e dores. Não grita no meu ouvido! Meu ouvido não é penico, oh! Mas havia pessoas que emudeceram junto comigo. Os olhos pularam assustados em cima de tamanha crueldade.
E as mãos? E as palavras? Minhas e dos outros? Onde foram parar? Onde foram falar? Chlap! Chlap! Seu! Sua! Seus transeuntes que passam! Que cena é esta? Que praça é esta?
A linguagem cortada, serrada ao meio, aos trancos e aos ventos. Meus ouvidos seguiram os dois. E a brutalidade se perdia ao longo das esquinas. Estaria escondida? Era uma fugitiva?
Ninfa Parreiras
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(foto: arquivo pessoal, Rio de Janeiro, inverno, 2007)