Arquivo do blog

Ninfa Parreiras no Youtube

domingo, 7 de dezembro de 2008

Do Fundo

Do Fundo

Do fundo, bem do fundo...

Era um auditório, ou era um galpão? Isso pouco importa. Estava cheio de educadores inscritos em um curso de literatura. Lá numa pequena cidade do centro-oeste de Minas, num final de semana. Alguns eram supervisores, outros coordenadores, outros diretores de escolas, uns setenta. De Papagaio, de Maravilhas, de Catita, de Vargem Grande.

Fui testemunha do que vou lhes contar. Vi um senhor e duas senhoras descobrindo o sabor do texto. O brilho das ilustrações.

No primeiro dia, às horas da noite, o senhor esticava os olhos e os ouvidos para a aula que eu ministrava. Buscava as ilustrações de um livro de histórias, o relato de um conto. Seu corpo cansado tombava, mesmo de pé, próximo a uma cadeira vazia. E suas mãos não disfarçavam a curiosidade pela aula, folheavam cada palavra. Foram muitas suas expressões, como um ator de um monólogo.

Depois de alguns minutos, atento aos conteúdos, aquele senhor se entregou à cadeira e pôde, confortavelmente, ser um ouvinte daquela aula num início de noite chuvosa. Quem seria ele? O esposo ou o pai de uma das professoras? Um diretor de escola? Um vigia da escola? Seria um analfabeto, num país onde o analfabetismo ainda é um fantasma? Saberia ler alguma coisa? Gostava de histórias?

Não importa quem fosse ele, era um interessado na aula e nas histórias. Seus olhos não desgrudavam dos livros e dos contos e das falas. Senti-me acolhida com aquela cumplicidade do olhar.

A presença daquele senhor foi somada a de duas senhoras de avental e de toca na cabeça, mais uma mocinha, atentas às falas. As merendas servidas por elas nos intervalos foram fartas, variadas entre biscoitos de queijo, broas, rosquinhas... Chá de canela, café grosso, leite gordo. E muita simpatia das pessoas.

No lado oposto deles, eu via e fotografava os olhares, as escutas, as curiosidades silenciadas... Quando chegava a hora deles se aproximarem, ao fundo do auditório, eu já me sentia emocionada. Afinal, foram três chances que me deram, ao final dos três diferentes turnos do curso.

Tive vontade de tomar em minhas mãos a câmera fotográfica e registrar aquele conjunto de pessoas que não estavam inscritas no curso, mas se deixavam levar pelas palavras que ouviam. Quem seriam as senhoras? Cantineiras? Serventes? Auxiliares da diretoria? Que faziam elas tão atentas ao fundo do auditório? Pareciam cansadas, mas também concentradas e curiosas. Tive ainda vontade de ouvi-las, conhecer seus casos.

Do fundo, vinha uma voz calada, de quem não pôde freqüentar as carteiras escolares, de quem não folheou os livros, nem deixou o lápis deslizar pelo papel branco, a criar composições.
Do fundo, eu via marcas no rosto de quem trabalha e fecha a escola. Mas eles queriam histórias, ou simplesmente ouvir a voz de quem conta.

Do fundo, aqueles senhores, cidadãos de um Brasil dos campos e das minas. Senhores da enxada? Da pá? Das vassouras? E onde entram os livros em suas vidas? Teriam filhos? Sobrinhos? Netos? E estes seriam leitores?

Do fundo, gritavam mudos, avançando pela escuridão do outono.

Na terra da ardósia, ardia a poeira molhada na minha fala. Com a chuva que caía mansa e com a escuridão que tomou conta do final do curso, fui assombrada pela cena que vivi.

O escuro se misturava às imagens deles, trazendo figuras, ao mesmo tempo, contentes e cansadas. Contentes com o que? Com as histórias, os livros, as ilustrações, a fala que ouviam. Cansadas de que? Dos anos sem histórias lidas e contadas. Dos anos sem. Sem leitura. Queriam, sim, cem livros de histórias!

Não sou a mesma professora de antes. Aqueles senhores, meus novos alunos, entregaram seus olhares para mim, em voto de confiança.

- Conta aí mais uma história, dona.

- Abra aqueles outros livros de figuras e vai passando os meses e os anos.

Para ver se a vida é outra. Se o sapo vira mesmo príncipe. Isso! Era isso que me pediam. E eu não podia negar-lhes. Eles tinham sede de livros, como as professoras, numa cidade onde não há uma livraria. Mas há o desejo de alguns de trazer os livros e os autores e a literatura. E lá estão!
Nas páginas dos olhos de cada um daqueles senhores, nas letras borradas escritas em suas faces enrugadas, nas lombadas de suas dores de velhos.



Ninfa Parreiras
Papagaio, MG, outono, 2008

---------------------------------------------

(Para a Rosa Filgueiras, que me deixou perto da turma do fundo)

(foto: arquivo pessoal, Papagaio, 2008)