Arquivo do blog

Ninfa Parreiras no Youtube

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Algumas palavras, alguns livros 11

O vermelho amargo
Bartolomeu Campos de Queirós
São Paulo: Cosac Naify, 2011


Seria o vermelho uma metáfora do nascimento? Da morte? Marca de sangue, de dor, de nascimento, de ruptura... E o que seria o corte de cada fatia de tomate? A afirmação da perda da mãe? Perder a mãe é se dar conta de que não há mais a vida embrionária, não há mais um cordão que une filho e mãe. Nem há mais o laço entre eles, depositário de cuidados, de acolhimentos, de trocas, de mágoas, de faltas.

Em sua nova obra destinada aos adultos e aos adolescentes, Bartolomeu mostra sua prosa feita de poesia, carregada de lirismos, de metáforas, de duplos sentidos, de não ditos, de silêncios. Há uma comunicação possível, entre o narrador (autor) e o outro (a mãe, um ente da família ou o leitor). Uma fala feita de olhares, suspiros, gostos, cheiros, sinais, expressões. A primeira fala que um bebê aprende: a linguagem silenciada, marcada por toques e expressões sensitivas.

O vermelho amargo, com a primeira edição já esgotada, depois de 3 meses do lançamento, nos leva ao mundo das relações, da criação de si e do outro. Criamos-nos a partir do olhar de um outro? Como nos sentimos autores do que fazemos? Entre a mãe e a madrasta, entre a prosa e a poesia, entre a palavra e o silêncio, entre o sonho e a realidade: a literatura de Bartolomeu. Essa invenção que nos leva por caminhos estranhos, mas também conhecidos, essa invenção de memórias e de esquecimentos. O que seria de nós sem a existência da literatura que nos coloca a viajar pelas palavras e entrelinhas do texto?
                                      Ninfa Parreiras


Caixa de desejos
Ana Cristina Melo
Rio de Janeiro: Vermelho Marinho, 2010
Obra de estreia da autora carioca Ana Cristina Melo, Caixa de desejos abre um mundo de sonhos, de fantasias, de ideias, de pensamentos, de aventuras.

O diálogo entre a adolescência (representada por Marília) e a maturidade (representada pela avó) toma conta desta narrativa dirigida aos jovens. Após a morte da avó e a chegada de uma irmã, a protagonista se vê às voltas com a elaboração de perdas, de mudanças na sua vida. Ela fica em contato com o diferente, o desconhecido. Marília não se intimida em abrir novos caminhos e em descobrir o que há de novo (a reinvenção da vida) no antigo (a caixa da avó).

No jogo entre duplos (neta e avó), passado e presente, lembranças e recriações, a novela se desenrola com uma linguagem fluente, entre tantas outras histórias que são costuradas.
Ver uma leitora passar a escritora, como o que acontece com Ana Cristina Melo, traz uma relação satisfatória e de boa costura. Do site Sobrecapa (http://sobrecapa.wordpress.com), aos blogs Canastra de Contos (http://canastradecontos.blogspot.com) e Ficção de Gaveta (http://ficcaodegaveta.blogspot.com), às obras para a adolescência (Caixa de desejos e De volta à caixa de desejos), Ana Cristina nos confirma que a palavra é matéria de cerzidura, de arremate para outras leituras e construções.
                     Ninfa Parreiras


Pinóquio
Lecticia Dansa (adaptação)
Ilustrações Salmo Dansa
São Paulo: Larousse do Brasil, 2010

Parceria já conhecida de obras anteriores, Lecticia (texto) e Salmo (ilustração) trabalham aqui com a consagrada história do boneco de Gepeto, criada em 1883. Diversas adaptações, traduções e montagens artísticas (filme, teatro, musical, canção) foram feitas ao longo desse mais de um século de Pinóquio. Aqui a adaptação do texto para o português vem apresentada em estrofes de quatro versos. São treze capítulos, mais textos informativos sobre Pinóquio e Carlo Collodi. As palavras jogam com situações da história e conservam musicalidade e graça.


Salmo opta pelas imagens cravadas em madeira, a exemplo de como foi feito o boneco. Isso dá um novo sentido à história, como uma releitura, num diálogo entre palavras e imagens. O tirar vida da madeira associa-se ao dar vida ao boneco, que deseja ser gente. Como o desejo é a mola propulsora das relações, das invenções, do amor, Salmo nos prova que inventar e recriar são atravessados pela necessidade de sonhar, pela possibilidade de dar sentido a algo morto, inerte. A madeira é transformada em objeto e arte, em deleite. E as palavras e os afetos são transformados em literatura, uma expressão de arte da palavra.


A obra está publicada em edição caprichada: capa dura, papel couche em fundo de madeira. A brincadeira, presente na confecção do boneco e o engenho do artesão são transportados para a obra de Lecticia e Salmo. Foram preservados os aspectos que caracterizam esta história clássica da literatura infantil: a criação como possibilidade de reinvenção do real; a metamorfose (madeira em boneco e boneco em gente) como possibilidade de mudanças.
               Ninfa Parreiras

O Brasil contado às crianças: Viriato Corrêa e a literatura escolar brasileira (1934-1961)
Ricardo Oriá
São Paulo: AnnaBlume, 2011

As obras dedicadas ao estudo da literatura infantil e juvenil constituem-se, cada vez mais, como um instrumento importante para os professores e estudiosos da literatura. Como entender o que é a literatura infantil? Como se deu a entrada da literatura infantil na escola, por meio das adoções e do aproveitamento pedagógico? Se considerarmos o nascimento da literatura infantil na década de 20 do século passado, com a criação de Monteiro Lobato, as produções dos anos seguintes teriam seguido as inovações de Lobato?


Em O Brasil contado às crianças: Viriato Corrêa e a literatura escolar brasileira (1934-1961), resultado dos estudos de doutorado de Ricardo Oriá, tomamos contato com quase três décadas de literatura escolar brasileira. Dividida em três partes, a obra aborda: a literatura escolar brasileira, em especial, o livro História do Brasil para crianças, do autor Viriato Correia. Em um segundo momento, o autor se detém na relação entre Viriato e a Companhia Editora Nacional, além de um olhar sobre o ilustrador Belmonte e a materialidade do livro didático. Na última parte, é discutida a recepção de História do Brasil para crianças junto ao público infantil e a adoção do mesmo como livro escolar.


Mais do que um registro histórico da utilização de livros pela escola, a obra traz uma reflexão sobre a educação escolar, o sentimento nacionalista, o patriotismo, a transmissão da cultura brasileira e a concepção de literatura para crianças. Imperdível para educadores, especialistas e aqueles interessados em literatura e educação.
                                   Ninfa Parreiras