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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Algumas palavras, alguns livros, 12

As coisas da vida: 60 crônicas

António Lobo Antunes
Rio de Janeiro: Objetiva, 2011


António Lobo Antunes, um dos consagrados escritores de Portugal, conta com uma obra em prosa, de romances e de crônicas. No caso dos romances, ele transgride a narrativa e cria uma linguagem e fio narrativos absolutamente próprios. Sua estreia se deu com Memória de elefante, romance que traz a densa separação de um casal e a mudança de vida do narrador, um psiquiatra que retorna de Angola.
Com a crônica, Lobo Antunes lida com naturalidade, mistura passado e presente, recria memórias, dialoga com ficção e realidade, faz interferências subjetivas que fisgam o leitor na primeira linha. O autor conta com uma significativa produção no Brasil, pela editora Objetiva, com uma dúzia de obras publicadas que merecem ser lidas por adolescentes e adultos.
Aqui estão reunidos sessenta textos, que foram publicados no jornal Público e na revista Visão, ambos de Portugal. Divididas em sete blocos temáticos (infância, literatura/metalinguagem, relações amorosas, humor, cotidiano, guerra em Angola, memórias), as crônicas nos levam a passear em Portugal, em Angola (onde o autor serviu como médico do Exército português, nos últimos anos da guerra) e no Brasil.
Nesse conjunto de narrativas curtas, o autor nos abre sua intimidade, seus enlaces, rompimentos, paixões, desamores, memórias, questões com a criação, a família, a literatura, os países onde viveu. É um passeio por uma história vivaz, por uma linguagem singular e envolvente.


                                                                               Ninfa Parreiras


Antes das primeiras estórias
João Guimarães Rosa
Ilustrações Carlos Chambelland & H. Cavalleiro
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011



Conhecemos a produção de Guimarães Rosa que reinventa a linguagem, cria personagens brasileiros, do interior do país, e cenários áridos, do sertão das Minas Gerais. Conhecemos o autor que subverteu a linguagem, criou um romance repleto de questões existenciais e subjetivas, numa fala que pode ser a metáfora da própria literatura. Como nos diz o escritor moçambicano, Mia Couto, na apresentação: “A maior parte das vezes, os escritores escrevem exatamente porque não sabem. E quando sabem eles escrevem para deixar de saber”.
Nessa reunião de quatro contos publicados pela revista Cruzeiro e no Suplemento dos Domingos de O Jornal, de 1929 a 1930, identificamos uma escrita anterior à publicação de Magma (único livro de poemas, o primeiro publicado); de Sagarana (o primeiro em prosa) e de Grande sertão: veredas (sua obra mais consagrada). O autor contava com pouco mais de vinte anos, recém formado em Medicina e ensaiava sua tecitura de palavras, com uma linguagem ainda presa a modelos clássicos. São textos importantes para entendermos o processo de criação de Guimarães Rosa e o desenvolvimento do seu apurado escrever.
Parece que estamos diante de um autor de língua inglesa, que caminha por mistérios, revelações e horror. De importância histórica e literária, essas narrativas nos levam a conhecer um outro Rosa, um escritor em formação. O autor venceu três concursos com relatos cheios de efeitos especiais, mudanças... O prêmio era a publicação dos textos, com ilustrações de Carlos Chambelland e H. Cavalleiro. “Makiné” foi publicado no Suplemento dos Domingos de O Jornal, de 1930. Os outros três contos (“O mistério de Highmore Hall”, “Chronos kai anagke” e “Caçadores de camurça”)receberam a premiação da revista Cruzeiro. São contos para os leitores jovens, numa possibilidade de aproximação da obra de um dos mais importantes autores da literatura brasileira.


                                                                    Ninfa Parreiras






Há prendisagens com o xão: o segredo húmido da lesma & outras descoisas
Ondjaki
Rio de Janeiro: Pallas, 2011
Os grandes autores são poetas, do verso ou da prosa. Este é o caso do escritor angolano Ondjaki. Autor de romances e contos, ele também tem seus poemas que reproduzem uma linguagem híbrida (o português e outros falares de Luanda, cidade onde nasceu) e própria: uma singularidade poética. Obra que homenageia o poeta pantaneiro Manoel de Barros, com uma nota, ao final, cheia de emoção e humildade.
Alguns poemas também homenageiam outras pessoas: Clarice Lispector, Paula Tavares. Em versos livres, a sonoridade se sobrepõe aos conteúdos e o uso coloquial de palavras e expressões deixa os versos leves: fluem como água em direção ao mar.
Percebemos diálogos com o tempo, a liberdade, a palavra, a literatura, a natureza. Ondjaki nos leva a acompanhar as formigas, a seguir sinais da natureza e a reparar pessoas, lugares, mosquitos e pequenas coisas e seres diferentes, como as descoisas, expressão usada pelo poeta.
Alguns títulos de poemas que por si só já são poesia: “Quinto mim guante”; “Arve jánãoelógica”, “Geadações & orvalhamentos”. São poemas que penetram na existência das coisas, dos seres, do humano e da própria poesia. Em “Penúltima vivência”, temos: “quero só/ o silêncio da vela./ o afogar-me/ na temperatura/ da cera./ quero só/ o silêncio de volta:/ infinituar-me; em poros quer hajam/num chão de ser cera”. Imagens e musicalidade nos convidam a um mergulho na poesia de Ondjaki.


                                                                              Ninfa Parreiras