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segunda-feira, 21 de julho de 2014

E viva a liberdade!


                                                Ninfa Parreiras
Surpreendente quando um ator se veste de tal maneira do personagem que a gente demora a perceber que ele mudou de máscara. Ou melhor, de filme. Toni Servillo, ator italiano, em seu Jap Gambardella, o cronista/escritor/observador, no filme A grande beleza, de Paolo Sorrentino arrebatou os expectadores. Demorei uns cinco minutos a entrar em seu novo papel, também definitivo. Singular e plural.
Gestos, olhares, movimentos ora bruscos, ora leves. E nossos olhos seguem e sentem cada mudança de figurino, de atores, de cenário. Os olhos bebem a ironia, a crítica à sociedade italiana (e à nossa). Um belo filme!
Agora ele está em cena novamente, em outra película italiana, Viva a liberdade, de Roberto Andò. Brilhante, ele atua como um duplo. Ou ele seria múltiplo? Como as muitas facetas que nos vestem na contemporaneidade?
Como o senador Enrico Oliveri, secretário do principal partido de oposição na Itália, ele tem sua imagem desgastada e resolve dar um sumiço. Seu assessor e sua esposa vão encontrar uma solução que vai mudar os rumos do partido. Do país. Enquanto isso, Oliveri volta ao passado, se re-aproxima da grande arte que é o cinema e o expectador ganha com um humor delicado e profundo. Rimos aos poucos, refletindo.
Até porque o filme não é uma mera crítica à política em cena. É a cena contemporânea que precisa de uma política com nova cara e novo corpo. Nem que seja pelas palavras imaginadas, embebidas de poesia e filosofia. Se acreditarmos que a vida é uma grande ficção, precisamos de políticos que contem histórias mais verossímeis e que o engano não seja no bolso do cidadão, mas na imaginação. Isso sim! Precisamos de arte, do cinema, da literatura, da poesia. É disso também que nos fala o filme de Andò.
Mais surpreendente, para mim, foi rir sozinha, rir com meus filhos. E rir com a plateia (desconhecida) do filme. E, ao final, minha filha de onze anos me diz cheia de alegria: - Mãe, adorei o filme! Mas não entendi nada do final.
Nem eu entendi. Nem seria para entender, porque a vida mesma é para a gente se divertir! Com a boa ficção.

Imagens: de divulgação do filme encontradas na internet