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Ninfa Parreiras no Youtube

domingo, 28 de novembro de 2010

Ver o Rio


Grades do Rio


                                                           Ninfa Parreiras

Foram telefonemas. Mensagens de emails. Recados. Como está o Rio? Tome cuidado! Interrompa seus trabalhos e viaje! Suma daí! As notícias: são as piores. Tanques do exército, helicópteros, armas de guerra, poeira e uma batalha sem data pra acabar.
Venha pra cá, largue tudo, mude-se pro Algarve, pra Bavária, pra Amazônia, pra Porto Alegre, pros confins das Gerais... Foram muitos os amigos, as vozes de alento. Quem está longe vê o caos ainda mais caótico. Tudo no Rio é exagerado: a beleza, a tristeza, a guerra.
O Rio de Janeiro continua lindo, entre grades, paredes e coletes a prova de balas. Caminho pela orla diariamente, a admirar o mar, as aves, as ondas que brincam de pega-pega pra ver qual chega primeiro. Um dia, alcanço o infinito do oceano.
Dia destes, me chamou a atenção o colete a prova de balas que usavam os seguranças de alguns edifícios no Leblon. O que era aquilo? Por que usar tal colete à beira mar? Era a guerra. Declarada. Bem perto de nós. Em cada esquina, quilos de munição, policiais armados. Um desconforto pra todos.
         Há poucos quilômetros dali, na área da Penha, um confronto de forças. Uma luta social. Milhares de famílias expostas, sacrificadas, velhos, adultos e crianças sem saber pra onde ir. À praia? Haveria mar pra todos? Na areia caberiam todos os sonhos? Como fugir? Nossa Senhora da Penha daria conta de atender a tantos pedidos? Bandidos!


       Entre grades, o Rio abre a beleza, desdobra suas curvas, seduz... Uma floresta que abraça uma cidade inteira, um mar que banha cada parte oceânica. Casas antigas, sobrados, linha do trem... História, cultura, natureza: reunidos num só lugar. Colinas que abrem a cidade aos oito cantos. Cantos? Conta mais da cidade! As pessoas que aqui vivem falam da cidade com boca cheia de orgulho e gosto pela indiscutível beleza. Ou falam com desgosto e preocupação.
       Mais que a arquitetura, a plástica, a urbanização, a natureza, faltaria algo. Um cuidado com as pessoas, com os cariocas, com os trabalhadores, com as famílias, com os indigentes, com os estudantes, com os migrantes, com os imigrantes, com os turistas, com todos que vivemos na Cidade Maravilhosa. Com os estrangeiros todos que aqui chegamos e com os que admiram o Rio de longe. Cuida de nós! É a voz que conclama o mundo a favor do Rio neste inesquecível novembro de 2010.


foto: arquivo do Rio, Lagoa Rodrigo de Freitas, primavera, 2008

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Algumas palavras, alguns livros 6

Leitura: uma aprendizagem de prazer
Suzana Vargas

Edição revista e ampliada
Rio de Janeiro: José Olympio, 2009
 
            No campo dos estudos sobre a leitura e a promoção da literatura, muitas têm sido as publicações nacionais. É uma área de estudos que ganhou espaço e recepção do público no mercado editorial há pouquíssimo tempo. Nas décadas de 80 e 90 houve poucas edições de livros dirigidas aos educadores, autores, editores, especialistas. A obra de Suzana Vargas, Leitura: uma aprendizagem de prazer, relançada recentemente, pode ser considerada um sucesso de edição: é a sua 6ª edição acrescida de alguns capítulos.
            Poucos são os livros neste país que ganham novas edições, ainda mais no campo das pesquisas e estudos sobre a leitura, os clamados ensaios. Bravo para a autora e para a editora! O que temos é uma experiência (da professora e promotora de leitura) e um estudo de mestrado da década de 80 (da estudiosa): são marcos na vida profissional de Suzana Vargas. Agora, na nova edição, ganhamos as experiências de Suzana com as rodas de leitura, principalmente no Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, e com leituras em grupos (na Casa da Leitura, nas oficinas da Estação das Letras).
            Criadora das rodas de leitura que fizeram sucesso no CCBB; da Estação das Letras no RJ (espaço inteiramente dedicado a cursos de criação literária), dentre outras ações de promoção da leitura, a autora vem com a sua bagagem literária para brindar o leitor sobre as suas reflexões acerca da relação leitura/leitor/livro. Mais do que nunca, é o momento para os educadores terem acesso a obras como esta: onde há espaço para reflexão, conhecimento de experiências e uma boa bibliografia. Um espaço de troca, de diálogo entre leitor e literatura que se constrói nas entrelinhas do texto.
            Recomendamos o livro como uma obra formadora para o leitor interessado em conhecer literatura, em aprofundar os conhecimentos na área da leitura literária e de práticas voltadas à literatura. Notamos que há duas partes: uma experiência acadêmica, de estudo do mestrado; e outra experiência prática, com as rodas e os grupos de leitura. Aliar a teoria à prática não é uma tarefa fácil para os profissionais. E Suzana traz isso com generosidade, ao dividir com cada leitor a sua trajetória profissional e leitora.
            Por sua vez, a obra nos possibilita a oportunidade de discutir que aprendizagem de prazer a autora defende. Leitora atenta e também poetisa, Suzana nos transmite com gosto suas experiências literárias apaixonadas. E nos deixa em dúvida: se há prazer, se há satisfação, se há gosto, se há formação da leitura. O certo é que a leitura literária suscita dúvida, conflito, não fecha caminhos nem responde perguntas, abre questões e novas formas de desejar, para os que somos sujeitos da nossa própria história.
            Destacamos o capítulo sobre literatura infantil, muitas vezes excluída de estudos sobre a literatura. A obra Marcelo, marmelo, martelo, da consagrada autora Ruth Rocha, é tomada como exemplo e discutida no âmbito das obras para as crianças, com relevância para a fantasia que habita esta importante etapa do desenvolvimento humano.
            Leitura: uma aprendizagem de prazer chega em nova edição para leitores diversos: educadores, livreiros, autores, editores, professores, bibliotecários, estudantes das áreas de humanidades... Todos que quiserem conhecer mais sobre a leitura literária!



Ninfa Parreiras 

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Algumas palavras, alguns livros 5

De escrita e vida: Crônicas para jovens
Clarice Lispector
Organização Pedro Karp Vasquez
Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010

Escrever e viver para Clarice Lispector eram duas coisas tão próximas, dois caminhos de estar no mundo. Avessa às teorias da literatura, recusava o título de intelectual. Em sua obra - romances, crônicas, contos - percebemos seu diálogo permanente com o escrever, o fazer literário. Ela dividia com o leitor as suas dúvidas, angústias e descobertas sobre a escrita. Respondia leitores de suas crônicas de jornal, respondia cartas que recebia e estabelecia uma troca que tinha o texto como foco.


Segundo volume publicado pela Rocco, com uma seleção temática de crônicas, Crônicas para jovens: De escrita e vida foi organizado por Pedro Karp Vasquez, depois do volume Crônicas para jovens: De amor e amizade. Embora a edição esteja endereçada aos jovens, os textos de Clarice podem ser bem apreciados pelos adultos: aqueles que já conhecem as suas obras supostamente vão identificar elementos vistos em algum texto; os que não a conhecem poderão se encantar. E, mais que tudo, é uma obra metalinguística, para os que gostam de escrever: os desafios, as entrelinhas, o papel em branco, a necessidade de escrever de madrugada, o depoimento ao revisor dos textos, a preferência de uma máquina de datilografar...


São dezenas de crônicas que mostram os bastidores de uma autora que vivia pela escrita e da escrita. Ofício? Aprendizagem? Como é que se escreve? Essas são algumas das questões que Clarice compartilha com o leitor, de um jeito íntimo e apaixonado pela vida e pela escrita.


O ato de escrever e a criação são dos temas centrais da obra e da própria vida de Clarice, visíveis aqui nesta coletânea em linguagem espontânea. Há crônicas em que ela abre a sua intimidade com o leitor, ao se declarar uma não leitora, alguém que precisa escrever, que não viveria sem a escrita: esta é Clarice Lispector!
                                         Ninfa Parreiras






O Livro de Ana
Bartolomeu Campos de Queirós
Ilustrações Marconi Drummond
São Paulo: Global, 2009

Considerado um dos maiores escritores da literatura infantil e juvenil brasileira, Bartolomeu Campos de Queirós encanta crianças e adultos com suas palavras poéticas. Sua obra, em prosa e poesia, conta com textos curtos e condensados, carregados de um lirismo incomum: cada metáfora é a marca de uma lapidação da escrita. Em O Livro de Ana, Bartolomeu nos aproxima do cuidado com a criança, da aproximação entre vida adulta e infância e nos fala de leitura, de vínculos afetivos. Ele nos traz a história de Sant’Ana (o nome em hebraico significa graça), mãe de Maria, que traz um livro nas mãos. Seria a leitura uma graça para os leitores?


O que teria naquele livro? Que histórias ele contava? De que reinos vinham as palavras do livro de Sant’Ana? São questões que acompanharam o menino Bartolomeu desde criança e seguem com ele até hoje. Agora, essas questões são compartilhadas com o leitor num gesto de generosidade.


Em uma linguagem lírica, o autor conta o mito da criação, da origem da humanidade: “E dentro do nada Ele iniciou a criação.” Em sete dias, são criados o firmamento, a terra, o mar, o infinito, o homem e a mulher... E ainda fala do silêncio que nos faz apreciar as coisas, que nos deixa ler. Ao associar a criação do universo à criação de um texto, em bela metáfora sobre o escrever, Bartolomeu nos mostra quão é necessário o outro para nos ler, nos decifrar. Não há literatura sem o leitor, sem o silêncio, sem as entrelinhas.


O Livro de Ana, além da religiosidade que carrega, é uma obra de caráter metalinguístico, em que o projeto gráfico nos faz passear pelos caminhos da arte: as páginas do miolo são cortadas, o que permite uma leitura lúdica. As ilustrações do artista plástico Marconi Drummond imprimem um ar sagrado e mítico à obra.
                    Ninfa Parreiras




O gerente
Carlos Drummond de Andrade
Ilustrações Alfredo Benavidez Bedoya
Rio de Janeiro: Record, 2009

Drummond poeta, contista, cronista, nos deixou um legado literário que o faz imortal. As novas edições e reedições de seus textos nos surpreendem e seduzem os leitores que ainda não o conhecem. O gerente foi publicado inicialmente em 1945, com ilustrações de J. Moraes, das Edições Horizonte. Como o autor dizia, era uma novela em formato de cordel, com o valor impresso na quarta capa: R$4,00. Obra popular e acessível aos diferentes leitores à época.


Pouco depois, em 1951, Drummond incluiu a novela na obra Contos de aprendiz, juntamente com outros contos de tirar o fôlego. Em 2009, a editora Record nos presenteou com esta bela edição em capa dura, com ilustrações em preto e branco do artista argentino Alfredo Benavidez. Se o texto é uma novela ou um conto fica a cargo do leitor.


Em O gerente, há um tratamento requintado da matéria ficcional: o leitor se prende ao texto do início ao fim. Drummond trouxe algo da ordem do diáfano, da surpresa, do inexplicável. Há um mistério, uma dúvida implantada na cabeça de quem o lê: quem decepava os dedos das mulheres? O que pretendia aquele gerente? A linguagem serve pouco para descrever e muito para sugerir. O leitor passa a ser um outro necessário à leitura das entrelinhas, dos subtendidos, é convocado a decifrar o que não se explica pela razão.


O homem exemplar que era Samuel, personagem principal, planta dúvidas entre os que o conhecem e em nós, leitores, que devoramos a história, ávidos por entender aquele homem aparentemente do bem. O que seria a normalidade? O que estaria escondido por trás dela? Uma das coisas que parecia fascinar Drummond eram os minúsculos fragmentos de diálogos, o olhar sobre coisas incompreendidas e não explicadas, muito presente nesta história.
Ninfa Parreiras

(Resenhas também disponíveis no site do Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT: http://www.ceat.org.br/ em Aquisições da Biblioteca: http://www.ceat.org.br/janelas_index/aquisbibli2010.htm )