CRÔNICAS DO RIO NO CEAT
Como atividade da 19ª Campanha Paixão de Ler da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, o Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT organizou, na Biblioteca, encontros para leitura e conversa sobre crônicas, com alunos e professores: Crônicas do Rio. Durante uma semana (de 04 a 11 de novembro 2011), foram lidas crônicas de todos os tempos, com um bate-papo ao final.
A crônica seria uma expressão literária? Alguns a consideram parente do texto jornalístico, outros a tratam como um gênero literário. Seria datada? A palavra crônica deriva da língua grega χρόνος ou chrónos (tempo). Qual a associação da crônica com o tempo? Como relato que segue uma sequência temporal, a crônica está apegada ao tempo contemporâneo, ao momento de quando foi escrita.
Como um suspiro comentado, a crônica fala de acontecimentos sociais, políticos, esportivos, culturais, atuais e traz comentários ou indagações do autor. Pode trazer também um relato de uma situação pessoal vista, sentida ou vivida por quem a escreve. Ou pode, simplesmente, discutir o que é escrever, com o uso da metalinguagem de forma bem coloquial. O humor, a ironia e a irreverência também são características da crônica, que tenta fisgar o leitor do jornal, da revista, do blog, do site. Depois, esses textos podem ser reunidos em um livro. O cronista costuma estar ligado aos acontecimentos, aos noticiários, às pequenas percepções do dia-a-dia.
Muitas crônicas ficaram atemporais pelo caráter literário com que foram feitas, as de Rubem Braga, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos e Rachel de Queiroz. A lista é longa e nela podem entrar ainda autores da contemporaneidade, como Luis Fernando Veríssimo, Zuenir Ventura e Arnaldo Jabor.
Uma questão muito discutida, hoje, a de dar voz ao negro na literatura, seja como personagem valorizado, seja também como autor, pode ser observada em crônicas de autores como Fernando Sabino e Vinicius de Moraes. O negro aparece como sujeito, sem tratamento piegas, nem depreciativo.
Em “Batizado na Penha”, de Vinicius, da obra As cem melhores crônicas brasileiras, organização e introdução de Joaquim Ferreira dos Santos, editora Objetiva, 2007, ele nos relata a ida dele e de familiares a um batizado na Igreja da Penha, no Rio de Janeiro. Uma pretinha de uns cinco anos, Leonor, cria da casa dos avós paternos, os acompanhava. A menina, ao brincar de pular os tantos degraus da igreja (mais de 300!), se escapole e rola abaixo. O poeta descreve, com carinho e minúcias, como a menina foi salva e como aquilo foi um milagre de salvação da vida dela, o último milagre da Penha que ele teve notícia!
Notamos que a menina era como um brinquedo para eles e era tratada com respeito, com cuidado, com mimo. A forma como ela é comentada nos mostra um tratamento sem discriminação (ela acompanhava a família que a criava). O olhar de Vinicius é de quem fala de alguém especial, familiar, próximo: “era danada de bonitinha”. Ele assume que eles pintavam com ela, como fazemos com os irmãos menores, nas relações de crianças, de adolescentes.
Em outra crônica, de Fernando Sabino, “A última crônica”, de Elenco de cronistas modernos, 19 ed, José Olympio, o autor nos narra algo que viu, fora de si, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica, em suas palavras. Ele observa, num botequim, na Gávea, no Rio de Janeiro, um casal de pretos com uma negrinha de três anos, laço na cabeça, arrumadinha.
Um ritual discreto daquela família prepara os parabéns, com uma garrafa de coca-cola e uma fatia de bolo e mais três velinhas brancas minúsculas levadas pela mãe. Sabino nos conta isso com uma minúcia e, ao mesmo tempo, com encantamento. E fala da alegria do sorriso daquele pai, satisfeito. Toma esse sentimento como o que gostaria de transmitir nessa sua última crônica, supostamente de um ano que terminara. Cada detalhe, cada sentimento da família são motivos para a crônica acontecer como queria o autor: com a alegria da pureza.
Diante desses dois exemplos de textos de décadas atrás, percebemos como o olhar desses autores sobre o negro traz delicadeza e cuidado. Um misto de admiração, de encantamento, que transborda o papel e contagia o leitor. Isso é crônica!
